X Congresso Brasileiro de Direito Eleitoral - 26 a 29 de maio - Museu Oscar Niemeyer

“O mundo evolui, mas o machismo continua trabalhando por fax”, alerta Carla Karpstein

29 maio 2026

A insistência do machismo em permear diversos âmbitos da sociedade foi demonstrada por Carla Karpstein no painel Voz, na manhã desta sexta-feira (29), no X Congresso Brasileiro de Direito Eleitoral. Com essa franqueza e o relato de experiências pessoais que ela conduziu um dos painéis mais carregados de verdade da edição: Entre Códigos e Preconceitos – como a misoginia moldou minha vida e minha advocacia.

A história começou cedo. Ela contou experiências que moldaram sua personalidade desde a infância, disputou o grêmio estudantil no Colégio e onde começou aprender a atuar na arena política. Começou a trabalhar aos 15 anos como vendedora de loja, onde ganhava menos do que os homens e eles tinha prioridades com os clientes. Quando foi trabalhar em um banco, conheceu de perto o que era o assédio.

Na advocacia, essa conta só aumentou. “Sempre ficou muito claro pra mim que eu sempre precisaria ser melhor do que os outros, os homens, no caso. E mesmo assim eu perderia trabalho pra eles”, afirmou.

Os episódios que acumulou ao longo da carreira mostram como o machismos está nos detalhes. Convites que não chegavam e a culpa, segundo ela, sempre jogada de volta às mulheres: ou porque não se impuseram o suficiente, ou porque as esposas dos colegas ficariam com ciúme. “A culpa de não ser convidada pra um evento é sempre das mulheres”, ironizou.

Também já ouviu de um político: “Dra, você é maravilhosa, mas prefiro um homem”.

Com o tempo, ela foi nomeando o que vivia. O que parecia comportamento individual revelou-se sistema. “Aprendi como o sistema patriarcal funciona: não era ‘mi mi mi’, era método.”

Reclamar, questionar, nomear atitudes que lhe renderam o rótulo de difícil. Ela abraçou. “Sempre fui uma chata”, disse. Ainda hoje, em 2026, com a carreira consolidada, ainda vê os homens serem abordados como intermediários.

“Quando alguém quer me propor um trabalho ou uma parceria, ligam pro meu marido, pro meu sócio ou até pro meu filho”, observou. Na sociedade, o machismo que antes chegava em reuniões fechadas agora aparece nas redes, nos stories, nos cursos de coach motivacional. “Tudo nada mais é do que misoginia com um pouquinho de wifi”, disparou.

Carla trouxe a reflexão que que muita gente faz: “A vida da mulher hoje é mais fácil? Ela respondeu sem rodeios: “Não. É diferente. O mundo evolui, mas o machismo continua trabalhando por fax”, sintetizou, ao falar sobre um movimento para desmantelar o que foi construído pelo esforço de muitas mulheres que deram até a vida para conquistar direitos.

Ela concluiu com os versos na voz de Caetano Veloso e Iza:

“É preciso estar atento e forte

Não temos tempo de temer a morte”.

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