A violência política de gênero e a radicalização de discursos misóginos nas redes sociais estiveram no centro do painel “Machosfera e monetização da misoginia digital: como o ódio às mulheres mobiliza bases eleitorais”, realizado durante o terceiro dia do X Congresso Brasileiro de Direito Eleitoral (CBDE), nesta quinta-feira (28).
O enfoque foi moderado pela advogada Jamile Coelho e reuniu a socióloga e pesquisadora Bruna Camilo, a advogada Flávia Viana e a especialista em comunicação política com perspectiva de gênero Edurne Ochoa Ledesma, que participou de forma online.
Ao discutir a chamada “machosfera”, Bruna explicou que a misoginia sempre existiu socialmente, mas ganhou novas formas de organização e propagação no ambiente digital. Segundo ela, a violência online não pode mais ser separada da violência concreta vivida pelas mulheres nos espaços públicos e institucionais.
“O que é a machosfera? É o espaço digital organizado e estruturado a partir da misoginia”, afirmou. A pesquisadora citou grupos ligados aos movimentos incel e redpill como exemplos de comunidades que transformam discursos misóginos em mecanismos de engajamento e monetização nas plataformas digitais.
Bruna também destacou que a violência política de gênero acompanha historicamente a presença feminina nos espaços de poder, mas passou a alcançar novas dimensões com a velocidade de circulação das redes sociais. “Esse ataque às mulheres se propaga de maneira muito rápida dentro da internet e faz com que muitas mulheres desistam da vida pública”, observou.
Durante o debate, as participantes defenderam que o enfrentamento à violência política exige mudanças culturais e institucionais, inclusive dentro do próprio sistema de Justiça. Para Bruna, a efetivação da legislação depende do reconhecimento cotidiano das práticas misóginas. “Os operadores do direito precisam parar de naturalizar a misoginia dentro de seu espaço de trabalho, junto de seus pares e na sua vida”, disse.
Flávia Viana chamou atenção para as dificuldades de aplicação da legislação que tipificou a violência política de gênero no Código Eleitoral, aprovada em 2021. Segundo ela, ainda há resistência institucional para reconhecer e enquadrar esse tipo de prática.
“A violência política de gênero não é uma ofensa individual, é uma prática organizada que tem impacto sobre o processo democrático”, afirmou.
A advogada também ressaltou que os ataques dirigidos a mulheres na política afetam diretamente a pluralidade democrática e a representação feminina nos espaços de decisão. “Quando uma mulher é constrangida, humilhada, não é a trajetória daquela mulher que está sendo prejudicada e interrompida, é a legitimidade da pluralidade política como um todo”, disse.
Ao abordar a dimensão internacional do problema, Edurne destacou que muitas mulheres abandonam campanhas e carreiras políticas diante do impacto dos ataques digitais sobre suas famílias e redes de convivência.
“Precisamos de rede de apoio e monitoramento da internet para proteger mulheres da violência”, afirmou. Segundo a especialista, os ataques virtuais são organizados de forma multidisciplinar e exigem respostas que envolvam educação digital, políticas públicas e investimento em mecanismos de segurança.
As debatedoras também defenderam a participação masculina no enfrentamento à misoginia e ressaltaram que a ampliação da presença feminina na política fortalece a diversidade de perspectivas dentro da democracia.

